Prezado Sr. José Wilson

Recebi, com grande satisfação, a mensagem do Professor Jorge Hessen, na qual me comunica que admiraste meus modestos acordes. Brinco com o teclado, desde os meus onze anos de idade, quando ganhei o meu primeiro piano. Estudei, enquanto morei na Rua Garibaldi, na Muda/Tijuca, com uma grande pianista/concertista, Adelina, no Rio de Janeiro, contemporânea de Madalena Tagliaferro, igualmente, concertista e grandiosa no piano. Infelizmente, fui muito prejudicada nos estudos, para não dizer desestimulada por completo, pois vim para Brasília, em l962, quando não havia professores de piano e nem, tampouco, de qualquer outro instrumento, pois a capital estava, ainda, nascendo. Numa das "audições", na residência da divina mestra, conheci Eliazar de Carvalho, grande Maestro da Orquestra Sinfônica do Rio de Janeiro, que, ao ouvir uma das minhas composições, disse-me: "- Sua música é muito linda, mas muito triste para a sua idade (eu, com 11 anos). Procure compor algo mais alegre." Isso foi um marco em minha vida, pois nunca consegui compor algo que eu pudesse dizer: - Esta é alegre. Chegada a hora de investir, novamente, no piano, fiquei decepcionada com os professores, pois não havia a menor condição de eu aceitá-los, uma vez que eram extremamente limitados, e o que é pior, exigindo uma postura que não me agradava - o exagero com o movimento dos pulsos, ou seja, o levantar e o abaixar das mãos. Que coisa mais feia! Sou uma espécie de Arthur Rubinstein, feminina: rebelde, interpretando a música como a sinto, e, não, conforme manda o figurino. Continuei estudando sozinha, mas não atingi o grau que deveria, pois logo, logo, casei-me, tive meus filhos, ingressei no serviço público e, aqui estou eu, com fé numa próxima encarnação, para realizar meu grande sonho: o de ser pianista concertista. Ao longo da vida, compus várias outras músicas, que, infelizmente, perdi algumas, por dois motivos: 1º - naquela época, não havia como gravar; 2º - não tinha e não tenho estudo suficiente para transcrevê-las para uma partitura. Atualmente,com os recursos do teclado eletrônico, tenho algumas armazenadas na memória do piano, outras no computador, e poucas em CD. Meu tio, por parte de pai, Alceu de Lemos Camargo, era violinista "spala" da Orquestra Sinfônica do Rio de Janeiro e casou-se com Vera Silva Camargo, também violinista da mesma orquestra, onde se conheceram. Anos mais tarde, transferiram-se para Vitória e lá construíram um belo patrimônio físico e espiritual. Para surpresa de todos, aos 70 anos, ele começou a compor.

Eis parte do que compôs:

Melodia-Hino da Escola de Música--Divagando-- Estudo Seresteiro-- Hino do Odontólogo-- Hino da Escola Normal de Colatina-- Valsa em dó--- Valsa da saudade----Caprichosa-Estudo em si menor-- Meditação--

Para orquestra infantil: Um sonho-- Valsinha---1ª Gavota--2ª Gavota----Brincando---Caminhando---Puladinho--Dança Antiga--Canção de Ninar------ Vamos Cantar-----3ª Gavota-------etc.

Para canto, só fez: Nostalgia

Para violoncelo: Canção Melancólica-----Enlevo-----Suave Melodia--- Seresta e Romance.

Para violino: Redemoinho Estudos nºs 1 e 2 ----Canzoneta

Para quarteto: Momento Musical e quarteto de violoncelos Conversa Fiada.

Para flauta: Serelepe.

Fundou o Coral da Escola, que, aliás, participei em alguns períodos de férias, enquanto adolescente. Infelizmente, partiu para a verdadeira vida, aos 94 anos, deixando sua esposa Vera entre nós, dando-nos o prazer da convivência, muito mais do que agradável, ou seja, gratificante. Se eu tivesse tido condições, teria vivido enfurnada numa escola de música, para respirar, diariamente, o mundo mágico da música erudito-clássica, bálsamo de minh'alma. Enfim...

Sr. José Wilson, foi uma honra saber que gostaste de minha música, principalmente, por ter sido sentida por "quem" foi, pessoa que compõe uma ilustre família do Estado do Pará, e voltado para o mundo maravilhoso da música. Parabéns!
Obrigada pelo carinho e será uma honra inserir teu nome em meus contatos especiais.

Sinceramente,
Vânia